• Año 6 N° 8 OTOÑO 2019

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    FACTORS 5.0 – Estrategias curatoriales en arte y sostenibilidad

    Nara Cristina Santos

    Las ediciones del FACTORS (Festival Arte Ciencia y Tecnología) contribuyen a una muestra de arte distinta, desde el sur de Brasil. Entre los desafíos se encuentran las estrategias curatoriales compartidas para reforzar la relación sociocultural-política –Sur-Sur– en el continente latinoamericano. El argumento transdisciplinario de la edición 5.0 está basado en el concepto de sustentabilidad, con proyectos y obras de artistas brasileños, argentinos y mexicanos que proponen cuestiones relevantes para pensar una ecología sostenible en el campo del arte contemporáneo.

    O festival e a curadoria compartilhada

    O Festival Arte Ciência e Tecnologia surge como uma demanda de exposições anteriores e como resultado mais recente de atividades de ensino, pesquisa e extensão no âmbito do LABART (Laboratório de Pesquisa em Arte Contemporânea, Tecnologia e Mídias Digitais), no PPGART (Programa de Pós-graduação em Artes Visuais/Mestrado e Doutorado), da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria). O evento tem como objetivo promover, fortalecer e divulgar a produção na área através de exposições que propiciam a discussão em torno da transdisciplinaridade na arte. Os artistas investigam outras linguagens, teorias e tendências em arte, ciência, tecnologia, ao mesmo tempo em que os historiadores, críticos e curadores pesquisam outras práticas expositivas, estratégias curatoriais e entrecruzamentos teóricos desta produção na arte contemporânea.

    O FACTORS expõe desde 2014, obras e projetos de artistas brasileiros e desde 2016 também de ibero-americanos, destacando-se argentinos, mexicanos e portugueses, todos com pesquisas consolidadas ou emergentes, que colaboram para pensar e questionar o campo da arte contemporânea. Os artistas convidados têm suas obras selecionadas através de uma proposta de curadoria compartilhada, que funciona desde a primeira edição, entre pesquisadores seniores e pesquisadores em formação na pós-graduação, na área das Artes Visuais/História, Teoria e Crítica. Desde 2017 conta com parceria curatorial de pesquisadoras brasileira e argentina,1 fortalecendo a relação sócio-cultural-política no eixo sul-sul, no continente latino americano.

    A proximidade entre o sul do Brasil e a Argentina pode facilitar em um primeiro momento relações de deslocamento entre pesquisadores, mas não é definidora desta parceria curatorial. Afinal, em uma época de eliminação de fronteiras espaciais por atuações temporais, são os modos de colaboração, as práticas vivenciadas e as teorias discutidas a partir de questões emergentes no campo da arte contemporânea, que definem proximidades e distanciamentos entre pesquisadores, entre suas posições e discursos. No caso do FACTORS, a curadoria compartilhada entre as pesquisadoras brasileira e argentina, tem se apresentado sempre desafiadora para pensar, propor e debater outras estratégias curatoriais transdisciplinares e outras maneiras de interligar a partir da América do Sul, obras e artistas ibero-americanos articulados nesta relação sul-sul, como local na perspectiva do global.

    Para o argumento curatorial do Festival tem-se como desafio uma concepção transdisciplinar a partir da qual se propõe um conceito que perpasse e problematize questões em torno da arte-ciência-tecnologia a cada exposição, para tratar, entre outras produções, da arte digital, arte computacional, arte e robótica, arte e natureza, arte e sustentabilidade.

    A concepção transdisciplinar entendida como ‘além do campo, fora do campo, outro campo’, pressupõe disciplinas que cooperam entre si, além e através delas mesmas, para um projeto comum que gera unidade, ainda que complexa, no resultado. Portanto, compreende-se a prática transdisciplinar não apenas como um modo de organizar o conhecimento a partir de diferentes disciplinas para constituir um pensamento sistêmico, mas também como um modo de se deixar atravessar, na produção em arte-ciência-tecnologia, por uma ação complexa.

    A arte contemporânea abrange todo tipo de produção artística, desde as linguagens mais tradicionais até as linguagens mais inovadoras em torno das tecnologias atuais, todas convivendo no mesmo espaço-tempo histórico. Portanto, é compreensível que a dedicação e estudo dos curadores sobre as obras e projetos com novos dispositivos em arte-ciência-tecnologia, que se propõem transdisciplinares, demandam um empenho à parte, na prática e no discurso problematizador desta produção.

    Nesse sentido, o Festival apresenta obras, projetos e trabalhos em processo, na sua maioria também transdisciplinares, sejam individuais, compartilhados ou colaborativos, feitos por artistas com carreira estabelecida, bem como jovens artistas, geralmente com apoio de profissionais de outras áreas como engenharia, informática, robótica, biologia e neurociência, para citar alguns exemplos.

    Os artistas são convidados e assim que apresentadas as obras e propostas de trabalho, iniciam-se três frentes de atividades: uma em torno do texto e discurso curatorial, cuja atuação acontece previamente à exposição; outra voltada para a expografia e design expográfico, cuja ação ocorre antes e durante a montagem do Festival. Inclui a equipe de montagem que também atua durante o Festival, no que diz respeito a manutenção da mostra. E, a terceira, da mediação, que acompanha as atividades anteriores para atuar durante o Festival.

    A curadoria e a expografia atuam em conjunto para uma prática que em geral também é problematizada, tanto por questões teóricas quanto tecnológicas. Algumas obras e projetos são desenvolvidos no local do Festival, adequadas as condições de exibição ou promovedoras de novos lugares de exposição. Nesse sentido, a atuação da equipe da curadoria e expografia também se mostra como um desafio.

    FACTORS 5.0 – Arte e Sustentabilidade na obra de três artistas

    O projeto curatorial desta edição é elaborado em conjunto a partir do argumento-conceitual da sustentabilidade que, atravessado pela concepção de transdisciplinaridade, possibilita discutir e ser discutido a partir de cada obra e projeto no festival.

    O FACTORS 5.0 tem como tema (bio) arte e sustentabilidade e reúne em 2018 sete obras de artistas brasileiros e estrangeiros. Embora nem todas as exposições de arte sejam completamente sustentáveis, isso não impede que se possam realizar mostras com o tema da sustentabilidade, suas implicações sociais, políticas, estéticas e éticas. Nesse sentido, as obras podem provocar aos visitantes não apenas uma inquietação diante da arte contemporânea que dialoga com a biologia e a tecnologia, mas, também, um engajamento com propostas alternativas de exposições artísticas que colaboram com requisitos de uma ecologia sustentável. Nós abelhas (2016) de Malu Fragoso é uma instalação experimental da arte computacional que investiga interseções poéticas entre arte, natureza e ciência, associada a um objeto artesanal sustentável para explorar o potencial criativo com organismos vivos naturais: abelhas. A instalação sugere uma metáfora de uma colmeia. RearWindow (2018) de Helga Correa é uma proposta com 12 lâminas dispostas sobre uma mesa e uma lente de aumento para visualização de pequenas bricolages. Esta obra trata da importância/desimportância da morte de insetos, aracnídeos, artrópodes e quilópodes coletados pela artista. Fil.Temp//Resonante Semi-Vivo (2018) de Federico Hemmer é um projeto artístico que revela o modo como organismos celulares/semivivos se organizam e convivem de modo ressonante com o entorno. Natureza e arte (2018) de Raquel Fonseca traz fotografias impressas resultantes de pesquisa em tecnologia móvel para abordar arte e natureza. A fotografia expõe a necessidade de uma política eficaz de sustentabilidade diante da natureza exuberante e artificializada das fotografias. Tradescantia (2018) de Cláudia Valente é uma instalação artística, tecnológica e científica com projeção a partir de um dispositivo mecatrônico/visual baseada na inteligência de uma flor selvagem, sua estrutura e desempenho. Evidencia como uma flor selvagem é capaz de se transformar contra a toxicidade do ar e revela estruturas geométricas de forças naturais em dança e colisão. Colônia (2014/2018) de Darío Sacco é uma bio-instalação sonora formada por uma colônia de seres que une partes tecnológicas em desuso e bio-unidades de material orgânico em decomposição. O conjunto de peças-organismo funciona como um único corpo sonoro que flutua no espaço expositivo. Geoformações (2018) de Camila Zappe e Calixto Bento é uma projeção de imagens e vídeos digitais do subterrâneo de uma mina de exploração de pedras preciosas, gemas. As formações gemológicas são recursos naturais limitados, e esta ação artística também se configura como finita na proposta de ambientação visual e sonora em fulldome. Todas as obras e projetos revelam uma posição crítica de proximidade entre arte e natureza para se pensar a sustentabilidade também como estratégia expositiva no campo da cultura. Curadoria: Nara Cristina Santos e Mariela Yeregui (FACTORS 5.0, 2018)

    A quinta edição do Festival tem como estratégia ampliar o conceito da edição anterior de bioarte para (bio)arte e sustentabilidade, considerando uma demanda de continuidade na parceria curatorial. Também se adere a uma proposta institucional, quando para esta edição, o evento vincula-se através da UFSM à agenda da ONU 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, visando atingir os objetivos 4 - Educação de Qualidade e 12 - Consumo e Produção Responsáveis.

    A relação do homem com o meio ambiente, baseada no indesejável tripé do descomprometimento, inesgotabilidade e irresponsabilidade, poderá consumar as previsões mais catastróficas quanto a escassez dos recursos naturais, sobretudo da água, inviabilizando dentro de poucos anos, a vida na Terra. Portanto, é fundamental a substituição por uma visão fundamentada nos princípios da sustentabilidade, racionalização e responsabilidade, dentro da qual, somos parte integrante do meio ambiente e, responsáveis pela proteção e pela elevação da qualidade de vida no Planeta. (TOCCHETTO; PEREIRA)

    Nesse sentido, o Festival Arte, Ciência e Tecnologia também colabora de modo geral para fazer o público pensar e questionar em torno da sustentabilidade. De modo específico, propicia discutir também implicações sociais sobre a preservação de recursos naturais no dia a dia; implicações políticas, sobre a necessidade de ações efetivas em defesa da sustentabilidade; e éticas, sobre a responsabilidade em relação ao meio ambiente e a manutenção da vida para gerações futuras. Todas as obras expostas em 2018, levantam questões para se pensar estas e outras implicações em torno do que é sustentável.

    Destacam-se três obras do FACTORS 5.0 que valorizam de modo distinto o conceito de sustentabilidade: Nós abelhas (2015), instalação participativa da brasileira Malu Fragoso, trata da necessidade de preservação das próprias abelhas como polinizadoras, em obra realizada com material reciclado, papelão, tecnologia digital e plantas vivas; Protocélulas//semivivos (2018), instalação do mexicano Federico Hemmer, interroga a concepção do vivo, ao gerar um ecossistema artificial auto sustentável para produção de semi-vivos, em obra realizada com produtos químicos, em interação com o meio, a luz, contidos no vidro e dispostos no ambiente; Tradescantia (2018), instalação tecnológica da argentina Cláudia Valente, apresenta a possibilidade de transformação sustentável de plantas selvagens diante da toxicidade do ar, através de uma obra em dispositivo mecatrônico, com tecnologia limpa e software livre.

    Figura 1: Nós Abelhas (2015), Malu Fragoso
    Foto: LABART, 2018.

    Nós Abelhas é um desdobramento do projeto S.H.A.S.T. - Sistema Habitacional para Abelhas sem Teto, uma proposta em arte contemporânea, situada no campo experimental da arte computacional, que investiga interseções poéticas entre arte, natureza, ciência e tecnologia no contexto da telemática (telecomunicações informatizadas). Faz parte de um conjunto maior de trabalhos que buscam, na aplicação de um ferramental tecnológico associado a objetos artesanais, explorar o potencial criativo que decorre da integração entre sistemas artificiais (digitais e/ou analógicos) com organismos vivos naturais, neste caso, um enxame de abelhas. O objeto criado com a ajuda de máquinas de corte a laser, aplicativos de modelagem 3D, programas de interação e visualização de dados e peças de bijuteria, sugere uma metáfora de uma colmeia e convida o público e se sentir abelha. Para isso é possível entrar na casa das abelhas e somar sua presença às demais abelhas do apiário. Essa intervenção é capturada pelo sistema eletrônico e representada pela visualização de dados projetada no espaço expositivo da obra. (FRAGOSO in: FACTORS 5.0, 2018)

    Figura 2: Protocélulas//semivivos (2018), Federico Hemmer
    Foto: LABART, 2018.

    Fil.Temp//Resonante Semi-Vivo é uma instalação para site specific composta por um ecossistema artificial que tem comportamento e utiliza receitas alquímicas do Século XIX para produzir substâncias semelhantes a células animais. O ecossistema é afetado pela vibração e ressonância, assim como seu entorno. Fil.Temp//Resonante Semi-Vivo reúne experimentos que são originais da biologia sintética e materiais inteligentes como um filamento de vidro e uma reinterpretação que tem como resultado um oscilador de tempo semi-vivo e com comportamento artificial. (HEMMER in: FACTORS 5.0, 2018)

    Figura 3: Tradescantia (2018), Cláudia Valente
    Foto: LABART, 2018.

    Tradescantia é uma flor selvagem capaz de se transformar contra a toxicidade do ar. O projeto artístico/tecnológico/científico desenvolve um dispositivo mecatrônico/visual baseado na inteligência, estrutura e desempenho desta flor. O dispositivo funciona como uma tela móvel para mapeamento de vídeo, na qual grupos de seres naturais são projetados em movimentos organizados. Através da edição de vídeo, são reveladas as geometrias que compõem tanto os bandos de pássaros voando como o acionar das forças antidistúrbios sobre as multidões. Desta forma, o trabalho revela estruturas geométricas de forças naturais em dança e colisão. Procura-se gerar um concerto dinâmico que revele outra dimensão do nosso sistema vivo, talvez, a possibilidade de fugir das abordagens usuais e agir em harmonia com o sistema da natureza. A instalação apresenta o dispositivo mecatrônico e a documentação visual da investigação. (VALENTE in: FACTORS 5.0, 2018)

    Como estratégias curatoriais do FACTORS 5.0, tanto a concepção de transdiciplinaridade, abordada a partir do conceito específico de sustentabilidade nesta edição, quanto a curadoria compartilhada, apresentam resultados instigantes para o trabalho da equipe quanto para a interação do público. Mas os desafios que cada uma das edições dos Festivais impõe trazem problemáticas distintas, ao mesmo tempo questionadoras e enriquecedores à equipe, para o conjunto de pesquisadores e daqueles em formação. É o caso do conceito de sustentabilidade pensado não apenas em relação ao tema do evento ou conteúdo das obras, mas implicado na própria exposição. Talvez esse seja o desafio contínuo, incluído nas estratégias curatoriais para as próximas edições.

    As exposições dedicadas à sustentabilidade são fundamentalmente contraditórias, pois embora procurem lidar com a mudança climática e trabalhem em busca de soluções criativas, contribuem para o problema do aquecimento global em virtude do carbono, dos resultados do transporte de obras de arte, dos catálogos e impressão para o espaço expositivo. (...) Pode-se concluir que as exposições ecológicas são simplesmente inviáveis ​​do ponto de vista ambiental. No entanto, se esta resposta é inadequada e irrealista, (tanto quanto insistir na suspensão imediata de todas as tecnologias insustentáveis, em vez de trabalhar gradualmente para um estado de sustentabilidade) precisamos, no mínimo, considerar apenas o que justifica a continuação do insustentável. Nesse caso, exposições de arte comprometidas com o tema da sustentabilidade. (DEMOS, 2012).

    O trabalho conjunto de pesquisadores das áreas de Artes e Ciência/Sustentabilidade, por exemplo, com formações diferentes, pontos de partida e de chegada tão distantes na pesquisa artística e científica, colabora para o projeto curatorial que deve gerar unidade, ainda que complexa, no resultado: o próprio Festival Arte-Ciência-Tecnologia. Cada nova edição do Festival estabelece outras conexões transdisciplinares, novos conceitos emergentes, aponta desafios para a curadoria compartilhada não se apresentar como modelo e, sobretudo, se atualizar para colaborar com sua área de investigação mais imediata, a crítica, a teoria e a história da arte contemporânea a partir das atuações temporais no eixo sul-sul.

    Referencias bibliográficas

    Link a la nota: http://untref.edu.ar/rec/num8_art_4.php

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